Preparar a luta… contra a homofobia!

Quase sempre não basta a boa vontade para conquistar aquilo que se quer. É preciso se preparar, estudar, qualificar, aprender… muitos são os argumentos dos contrários.

A homofobia está enraizada em nossa sociedade capitalista, machista e homofóbica. Por conta disso somos obrigados a reprimir nossa afetividade e, para fazê-la, ou estamos dentro das nossas casas, quando conquistamos independência de nossos pais, ou estamos em espaços segmentados, próprios, como boates, bares, saunas e festas lgbt. Para não ficar só na questão da sexualidade, nem nossa espiritualidade podemos manifestar, pois ou “deixamos” de ser homossexuais ou procuramos uma igreja inclusiva, presente somente nos grandes centros urbanos.

Então é preciso lutar muito. Arregaçar as mangas e trabalhar… A homofobia não nos deixa outra alternativa senão lutar, protestar, e dar visibilidade aos nossos desejos e anseios.

Em Jacareí, cidade do Vale do Paraíba, o conservadorismo reina. Encravada no eixo religioso da fé catolicista, nos deparamos com a presença midiática da renovação carismática e suas intempéries, da religiosidade conservadora e dos/as beatos/as santanários, passando pela exploração da capital da fé, Aparecida e do novo santo, Guaratinguetá. É assim mesmo, uma cidade média, com grandes empresas, comércio em crescimento, desenvolvimento em riste e preconceito em abundância.

É lutar muito e melhorar a situação. Não é fácil não. Como em lugar algum. É precisar trabalhar, lutar.

1ª Capacitação em Direitos Humanos em DST/HIV/aids - ONG REVIDA

1ª Capacitação em Direitos Humanos em DST/HIV/aids - ONG REVIDA

Criamos a ONG REVIDA, fomos atrás de parceiros e nesse dia 29 de novembro de 2009 realizamos a nossa 1ª Capacitação em Direitos Humanos para a população LGBT. Juntar esse povo em um curso em pleno domingo é complicado. Mas colocamos nossa cara à tapa. Era preciso fazer algo. Revezando entre 20 e 25 pessoas, fincamos mais uma estaca na homofobia.

Conversamos e discutimos, aprendemos, observamos, e choramos. Um trabalho estava iniciando.

Julian Rodrigues do grupo Corsa

Julian Rodrigues do grupo Corsa

Contamos com a preciosa colaboração do grupo CORSA, representados pelo Julian Rodrigues e pelo Lula Ramires, também se fez presente a Clara Cavalcante, do Programa Municipal DST/HIV/aids de Jandira, acompanhada por Pierre e Fernando. Dando suporte e financiando o encontro, pudemos contar com a presença significativa da Marisa Braga coordenadora do Programa Municipal DST/HIV/aids de Jacareí, que com sua simplicidade, mas aguerrida posição contra o preconceito, conquistou a todos/as.

Lula Ramires do grupo Corsa

Lula Ramires do grupo Corsa

E assim o encontro desenrolou. A emoção da abertura, quando anunciei que a ONG REVIDA foi selecionada pelo Programa Nacional DST/HIV/aids para desenvolver um projeto de atendimento jurídico às populações vulneráveis e curso de capacitação em Direitos Humanos em 2010, no valor de R$ 40 mil… o primeiro projeto financiado da ONG. O aprendizado proporcionado pela brilhante apresentação do Julian Rodrigues e do Lula Ramires, pela confraternização do almoço, pela presença iluminada da Clara Cavalcante, que soube com maestria, envolver todos/as na discussão na parte da tarde. Não posso deixar de mencionar dois momentos especiais na apresentação da Clara: quando meu companheiro Serginho relatou o preconceito vivido por ser afeminado e pela preocupação de um dia encontrar uma pessoa que o aceitasse, dizendo nesse momento que tinha encontrado essa pessoa quando me conheceu, há quase sete anos… falou de uma maneira que lacrimejou os olhos dos presentes, sem exceção. Não esperava por isso. E o outro momento foi quando a Clara pediu que olhássemos nos olhos da coordenadora do Programa Municipal de Jacareí, Marisa, e disséssemos o que queríamos. Pronto, pensei, o povo vai pedir recursos para a ONG, materiais, verba para encontros, reuniões, projetos, ao contrário, pediram que fossem respeitados, que os direitos fossem garantidos, que ações fossem realizadas para diminuir o preconceito e que fossemos tratados como iguais.

Clara Cavalcante, psicóloga de Jandira - SP

Clara Cavalcante, psicóloga de Jandira - SP

Dessa maneira aconteceu o nosso encontro nesse gostoso domingo. Aprendemos muito com o Julian, o Lula e a Clara. Aprendemos com nós mesmos e melhor, saímos com muita energia e vontade de arregaçar as mangas. Vamos fazer outros encontros, reuniões. Vamos articular para leis serem aprovadas e vamos realizar a 1ª Parada LGBT de Jacareí e do Vale do Paraíba em 2010.

Marisa Braga do PM DST/HIV/aids de Jacareí e Luiz André da ONG REVIDA

Marisa Braga do PM DST/HIV/aids de Jacareí e Luiz André da ONG REVIDA

Como não podia faltar, a confraternização após o encontro foi no bar da nossa amiga Matilde, que esteve presente no encontro e nos recebeu muito bem em seu estabelecimento. Não vou esquecer nunca desse dia. Por que começamos o “Jacareí sem Homofobia!”

Luiz André Moresi
Coordenador da ONG REVIDA de Jacareí

Confraternização - ONG REVIDA

Confraternização - ONG REVIDA

Celebrar a vida e cumprir o destino!

Quero falar de vida, mas 2009 têm me levado a pensar/refletir/organizar o pensamento sobre a morte. E sobre a tristeza, a ausência, a possibilidade da perda e sobretudo a necessidade e imposição de se falar no passado.

No dia 3 de maio perdi minha mãe, D. Graça, vítima de uma parada cardíaca. Seu enterro, dia 4, foi marcado por uma dor insuportável, que por muitas vezes tentei ajudar amigos na mesma situação, com palavras de conforto e nesse dia pude perceber que são palavras, naquele momento, ao vento. A dor é tão grande que só mesmo vivenciando-a é que se pode medir sua dimensão.

No dia 4 de setembro perdi outra pessoa muito querida, minha Tia Angela, de Volta Redonda, vítima também de parada cardíaca, depois de se recuperar parcialmente de um derrame e já com liberação médica para voltar para sua casa. Meu pai, após exatos 4 meses da perda da mulher que ele viveu por 37 anos, teve que enterrar sua irmã, a mais parecida com a sua mãe D. Nair, a Senhora Simpatia.

Mas o Ciclo da Vida é interessante. Todos passamos por ele. Nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos. Alguns não envelhecem, não crescem, mas todos nascemos e morremos. É fato e não tem como escapar disso. Somos seres vítimas do Ciclo da Vida.

Um dia antes, 3 de setembro, nasce meu novo sobrinho, Luiz Guilherme. Nem tive tempo de vê-lo no hospital, precisei ir às pressas para Volta Redonda com o meu pai. Nasceu bem, esperto, está dando muito trabalho, já deve ter crescido alguma coisa, e cercado por grande carinho dos pais, irmãos, do avô, da outra avó e do tio, mais ausente, mas acompanhando de longe, quase perto.

Sempre coloco nas redes que participo – orkut, twitter, site, blog, facebook, msn – que estou “celebrando a vida” e já teve gente me questionando por que isso? Porque celebrar a vida com tanta gente querida indo embora. Em dois anos, duas tias (Angela e Neusa), minha mãe e tantas outras pessoas queridas que se foram. Como celebrar?

Mesmo sendo difícil falar de minha mãe no passado “minha mãe gostava, ela queria, podia, fazia, tentava, buscava, minha mãe era, e assim por diante”, preciso lembrar e celebrar todos os momentos que passamos juntos. Preciso e é bom tê-la viva na memória e no coração. A dor da perda não se tornará sentimento de saudade se eu não buscar na memória e no passado o que foi e o que viveu minha mãe. Hoje, celebrar a vida dela, é poder estar ao lado de meu pai, ser solidário com os seus sentimentos. Estar próximo de minha irmã, cunhado e meus 3 sobrinhos – Luiz Gustavo, Jéssica e Luiz Guilherme.

Celebrar o nascimento de um novo membro da família, cada momento que passarmos juntos, cada ligação recebida, cada palavra dita. Celebrar o passado e a memória. Celebrar o que está por vir.

O destino se faz presente no caminhar da vida. E celebrar o ciclo que ela faz é possibilitar que o destino se cumpra.

O Ciclo da Vida – Música tema do filme O Rei Leão interpretado pelo brilhante Ricky Vallen