Boas Festas e Feliz 2010

Boas Festas e Feliz 2010

Boas Festas e Feliz 2010

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Carta aberta ao leitor

Parada 2009

Parada 2009

Leitor,

Desculpe-me a sinceridade e a liberdade de publicamente, dirigir-me a você, talvez as paradas, manifestações, artigos, entrevistas e pesquisas não foram suficientes para sua sensibilização.

Neste 28 de junho é celebrado o orgulho de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais – LGBT – em alusão ao que ocorreu nessa mesma data na cidade de Nova York em 1969, e que veio a ser conhecido como a Rebelião de Stonewall. De freqüência LGBT, Stonewall era e ainda é um bar que sofria repetidas batidas policiais, sem justificativa. Naquele dia, os freqüentadores se revoltaram e a manifestação durou três dias, mudando as atitudes repressivas das autoridades para com as pessoas LGBT e dando início à luta pela igualdade de direitos de LGBT. Essa data é celebrada por todo o mundo através de paradas, e outros eventos culturais, artísticos, acadêmicos e políticos trazendo a expressão de orgulho, não de vergonha, de assumir publicamente a orientação sexual e identidade de gênero LGBT.

Parada 2009

Parada 2009

Agora, caro leitor, você já sabe por que acontece a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior do planeta e pelo menos outras 150 pelo Brasil afora. É uma manifestação social e política por reconhecimento de direitos. Assim como negras e negros tem o dia 20 de novembro, mulheres o 8 de março, trabalhadores o 1º de maio, as pessoas LGBT tem o 28 de junho. Outros movimentos se utilizam de instrumentos parecidos também para reivindicarem direitos. Movimentos dos Sem Terra e sem Teto, Marcha Mundial de Mulheres, Centrais Sindicais, Movimento Estudantil e tantos outros movimentos. Mesmo diante de tamanha manifestação e mobilização, direitos ainda são negados e o pior, o preconceito existe, é grande e fere e mata.

Muitas vezes, até sem perceber, propagamos atos homofóbicos e colocamos pessoas LGBT em situação de desconforto e ridicularização. Tantas vezes, através de comentários e piadas, fazemos “platéias” rirem de termos como gazela, boiola, libélula. Dizemos “isso é uma bichona”, que tal pessoa “morde a fronha” ou que “isso é coisa de boiola”. Reproduzimos uma situação que é muito triste aqui e no mundo todo: a Homofobia. Nem lembramos que em sete países há pena de morte para os homossexuais e 80 países criminalizam os atos homossexuais e que no Irã gays são enforcados em praça pública.

Fico imaginando como sofrem os adolescentes que descobrem sua orientação sexual ou identidade de gênero LGBT, na escola, na família e no bairro. Recentemente vimos num programa jornalístico de investigação um adolescente de 14 anos, Iago, que cometeu suicídio porque não agüentava mais sofrer com a homofobia dentro da escola. Esses mesmos termos que muitas vezes usamos como piada, tenho certeza, eram adjetivos usados por colegas para discriminar Iago. Pesquisa da UNESCO publicada em 2004 consta que 40% dos adolescentes não gostariam de estudar com um gay, uma lésbica ou uma pessoa trans. Na última Parada Gay em São Paulo 22 pessoas ficaram feridas com uma bomba que uma pessoa jogou de um prédio e um gay de 35 anos, numa rua próxima da Praça da República, foi espancado. Apanhou tanto que sofreu traumatismo craniano e morreu. É isso mesmo, morreu vítima da homofobia.

Campanha contra homofobia

Campanha contra homofobia

Aqui no Vale do Paraíba muitas pessoas LGBT foram brutalmente assassinadas vítimas da raiva e da intolerância de seres inconformados com a diversidade sexual. Não é à-toa que a maioria dos pais não querem que seus filhos sejam gays, lésbicas, travestis ou transexuais. Eles temem que sofram, que sejam violentados, discriminados e que sejam motivo de piadas de péssimo gosto e assédio moral. Já são quase 3000 as pessoas que, nos últimos 20 anos, foram barbaramente assassinadas só porque eram LGBT. Isso é muito triste.

Essa semana, no mesmo programa jornalístico, “Profissão Repórter”, outra situação foi mostrada. Uma garota de 14 anos foi deixada por sua tia, no conselho Tutelar da cidade de São Paulo, por se vestir como menino e ter características masculinas. Ela tinha ido morar com a tia por causa das freqüentes surras que levava da mãe e do padrasto. “Minha mãe não aceitava. Ela tinha preconceito como eu me vestia… andava muito menino”, disse a adolescente. Perguntada se gostaria de ser menina, a garota gesticula que não e diz que sempre foi assim, desde pequena. “Minha tia também não quis [aceitar]. Queria me vestir de mulher, eu não aceitei. Então, pedi pra ela me mandar pra cá [conselho tutelar]”, contou. Ficou claro nessa reportagem como o preconceito interfere na vida de uma pessoa, no caso, na infância e na felicidade de uma criança que, diante de tamanha agressão dentro de casa, mesmo assim, ainda diz com lágrimas que se pudesse escolheria a casa de sua mãe para morar. O preconceito homofóbico fez que, conforme mostra a reportagem, essa garota fosse viver em um abrigo.

Por isso que escrevo essa carta para você, querido leitor e leitora. Basta de homofobia, muita gente já morreu e sofreu e sofre porque, de algum modo, desrespeitamos a condição da pessoa humana. Se você é professor, trabalhe em sala de aula o respeito à diversidade. Jornalistas podem escrever artigos valorizando a boa convivência e denunciando as mazelas contra os direitos humanos. Nossos parlamentares, vereadores e deputados da região podem criar leis que favoreçam o respeito e garantam os direitos de pessoas LGBT. Nossos prefeitos podem criar políticas públicas de inclusão dos LGBT na sociedade, a exemplo do que acontece no governo federal, através do Programa Brasil Sem Homofobia. Há também o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT, com 180 ações contra a homofobia e a favor do respeito à diversidade humana, fruto da 1ª Conferência Nacional LGBT, precedida de conferências regionais e estaduais, uma delas realizada em nossa região no ano passado. Radialistas e apresentadores de programas de TV podem e devem contribuir para que o preconceito deixe de existir e todos nós podemos fazer coro e apoiar o projeto de lei que criminaliza a homofobia, o PLC 122/2006 que está parado no Senado Federal.

Senhoras idosas na Parada Gay 2009

Senhoras idosas na Parada Gay 2009

Todos nós podemos nos dirigir as pessoas LGBT com respeito e dignidade como qualquer outra pessoa tem direito. Aquelas piadas e chacotas podem contribuir para que adolescentes cometam suicídio, que pais e mães expulsem seus filhos de casa e que atitudes violentas contra LGBT sejam reforçadas.

Desejo tanto que nossa constituição seja respeitada, quando diz nos artigos 3º e 5º que todos são iguais e não haverá discriminação de qualquer natureza. Conto com sua ajuda, caro leitor e leitora.

Luiz André Rezende Moresi, é ativista dos Direitos Humanos e dos Direitos LGBT