Um jornal, a matéria, o trabalho e um Amor!

Interessante como uma matéria no jornal dá uma visibilidade interessante ao trabalho que a gente desenvolve.
Sei que nem sempre a matéria é fidedigna, muitas vezes falta dados ou são apresentados distorcidos. No Jornal Diário de Jacareí desse sábado, dia 28/11/2009 saiu uma reportagem sobre a ONG REVIDA que presido, sobre o contrato de união homoafetiva que duas amigas vão celebrar e sobre um encontro LGBT no domingo, dia 29.

Matéria no Jornal Diário de Jacareí, dia 28/11/2009

Matéria no Jornal Diário de Jacareí, dia 28/11/2009

Vale lembrar que o contrato de união homoafetiva ou união estável é muito restritiva e quase não garante direitos. Alguns, mais para efeito de convênio médico ou em situações de jurisprudência decididos por meio da Justiça.

Matéria no Jornal Diário de Jacareí, dia 28/11/2009

Matéria no Jornal Diário de Jacareí, dia 28/11/2009

Nesse domingo, dia 29, vamos realizar nossa 1ª Capacitação e Sensibilização em Direitos Humanos em DST/HIV/aids para o público LGBT em parceria com o Programa Municipal DST/HIV/aids da Prefeitura Municipal de Jacareí. Vai ser um encontro muito interessante, com 40 pessoas, formadores de opinião e que vão poder dissiminar o conteúdo desenvolvido no dia.

E podem contar… uma Parada LGBT em Jacareí está por vir!!!

Matéria no Jornal Diário de Jacareí, dia 28/11/2009

Matéria no Jornal Diário de Jacareí, dia 28/11/2009

Uma Parada no interior!

A gente caminha pelas ruas e não imagina como será. Olha para o povo e não sabe da reação. O tempo? Uma incógnita. E o rio vai levando adiante suas águas. Os peixes, lá estão. Uma diversidade deles.

Rio Piracicaba

Águas do Rio Piracicaba

Cinco dias numa cidade do interior. Onde o rio passa e os peixes param. Cidade da cachaça e das pamonhas de Piracicaba.

Reunidos, 50 pessoas LGBTT discutiram seus direitos, organizaram suas lutas, avaliaram seus caminhos e descaminhos, refletiram suas ideias e por fim celebraram. Uma Parada no interior.

1º Encontro LGBT de Piracicaba e Região

1º Encontro LGBT de Piracicaba e Região

Cresci ouvindo aqueles carros de pamonhas gritando aos quatro cantos a famosa frase “Olha a pamonha, pamonhas, pamonhas de Piracicaba”. Nem imaginava de onde vinha aquele quitute de milho verde. Queria é me lambuzar do doce de Piracicaba. Agora já sei de onde vem. Cidade linda, acolhedora, povo simpático.

Cheguei na concentração da 3ª Parada LGBTT de Piracicaba. Povo já animado mesmo sem o som estar ligado. Gente diversa, alegre, chegando de toda parte da cidade. Em grupos, sozinhas, pulando, cantando ou chegando de fininho e observando. Famílias inteiras, crianças, idosos.

Concentração

Concentração da 3ª Parada LGBTT de Piracicaba

Chega um trio de um parceiro. Vira um alvoroço. Enfim o som, a música, o batidão. Em seguida, o trio oficial abre o som e coloca suas potentes caixas para funcionar. Uma loucura. A galera explode de emoção.

Gente montada de todo lado. Drag Queens, travestis, transexuais, gays, lésbicas e bissexuais se acomodavam entre os heteros simpatizantes.

A abertura oficial – Rubia, drag da cidade, arrasa ao lado de Dimmy Kieer, um amor e Salete Campari, engajada. Já víamos umas 10 mil pessoas. Vamos caminhando, as pessoas nas janelas dos prédios acenando, carros buzinando e o som rolando. Aí podíamos imaginar umas 20 mil pessoas até o momento que Dimmy Kieer avisa: São 20 mil pessoas, número oficial da polícia. É hora de perceber nos rostos das pessoas que organizaram a alegria e a satisfação. Dever cumprido. Mas muita emoção ainda ia rolar.

Dimmy Kieer, Luiz André e Salete Campari

Dimmy Kieer, Luiz André e Salete Campari

Do nada, uma cena triste. De alguma janela, um ovo é arremessado e atinge em cheio os peitos de uma travesti que estava em cima do trio elétrico. Nessa hora, Rubia, Dimmy e Salete param o trio e não deixam barato. A pessoa homofóbica tinha que ouvir poucas e boas. E tenho certeza, ouviu. Estava alí pertinho, se acovardando detrás de uma janela. Dado o recado, o trio segue… e desce a ladeira.

O trânsito se complica. O departamento de trânsito não organiza direito. No microfone, divina Rubia cobra do prefeito Barjas Negris providências. Danada ela. Incisiva. Mas o prefeito desce do trio e nada acontece. Militantes é que começam a organizar o trânsito nessa hora. Já estávamos terminando a parada. Destino final o palco montado no largo da Rua do Porto. Emoção! No palco, com entusiasmo é anunciado: 35 mil pessoas na 3ª Parada LGBTT de Piracicaba. Eu estava lá e comprovo.

Multidão

Multidão na 3ª Parada LGBTT de Piracicaba

Beirando o Rio Piracicaba, com sua beleza e seus peixes de testemunhas, via-se uma multidão celebrando a diversidade, reivindicando direitos negados, lutando contra a homofobia… vivendo o amor, que tem nome sim senhor: o amor lésbico e gay, o amor das travestis e transexuais. O amor LGBT.

Parabéns Alselmo/Theo pela organização, e em seu nome agradeço a hospitalidade, alegria e dedicação de todos e todas da ONG CASVI que proporcionaram esse momento maravilhoso para a história do Movimento LGBTT do Brasil.

VIVA A DIVERSIDADE!!!

Luiz André Moresi

Bandeira do Arco-íris

Bandeira do Arco-íris

Feliz Dia do Raloin! Fique esperto com o Saci.

Sou um apaixonado por lendas e contos e causos do folclore brasileiro. E um dos personagens que eu mais gosto é o Saci Pererê, o negrinho de uma perna só, com seu pito e o tradicional gorro vermelho. Cresci assistindo o Sítio do Pica-Pau Amarelo e tive a oportunidade de ler toda a coleção de Monteiro Lobato. Muleque esperto, cheio de ginga e de uma imaginação sem tamanho. Mas de coração bom e brincalhão.

Olha o Saci aí gente!!!

Saci Pererê, personagem do folclore brasileiro.


São Luís do Paraitinga comemora com ampla festividade esse dia especial do imaginário brasileiro. Muitas são as histórias de pessoas que viram o Saci e na cidade até existe a Sociedade dos Observadores de Sacis, a SOSACI… fazem uma campanha para que ele seja o mascote da copa de 2014 aqui no Brasil. Se for o escolhido, vai dar o que falar. Eu apoio e subscrevo o abaixo-assinado. Que tal enviar uma mensagem para a Confederação Brasileira de Futebol? O e-mail é comunicacao@cbffutebol.com.br .

Muita gente comemora o que vem de fora: monstros, bruxas, personagens de filmes de terror norte-americano. No Brasil existe um projeto em tramitação para que o dia 31 de outubro seja o Dia do Saci Pererê e seus Amigos. Algumas cidades já criaram esse dia, organizam eventos, festas, contação de estórinhas em praça pública.

Para recordar um pouco, segue um vídeo de um especial do Saci na Rede Globo.

Luiz André, branquelo, gordinho, de duas pernas, mas amigo do Saci…

Celebrar a vida e cumprir o destino!

Quero falar de vida, mas 2009 têm me levado a pensar/refletir/organizar o pensamento sobre a morte. E sobre a tristeza, a ausência, a possibilidade da perda e sobretudo a necessidade e imposição de se falar no passado.

No dia 3 de maio perdi minha mãe, D. Graça, vítima de uma parada cardíaca. Seu enterro, dia 4, foi marcado por uma dor insuportável, que por muitas vezes tentei ajudar amigos na mesma situação, com palavras de conforto e nesse dia pude perceber que são palavras, naquele momento, ao vento. A dor é tão grande que só mesmo vivenciando-a é que se pode medir sua dimensão.

No dia 4 de setembro perdi outra pessoa muito querida, minha Tia Angela, de Volta Redonda, vítima também de parada cardíaca, depois de se recuperar parcialmente de um derrame e já com liberação médica para voltar para sua casa. Meu pai, após exatos 4 meses da perda da mulher que ele viveu por 37 anos, teve que enterrar sua irmã, a mais parecida com a sua mãe D. Nair, a Senhora Simpatia.

Mas o Ciclo da Vida é interessante. Todos passamos por ele. Nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos. Alguns não envelhecem, não crescem, mas todos nascemos e morremos. É fato e não tem como escapar disso. Somos seres vítimas do Ciclo da Vida.

Um dia antes, 3 de setembro, nasce meu novo sobrinho, Luiz Guilherme. Nem tive tempo de vê-lo no hospital, precisei ir às pressas para Volta Redonda com o meu pai. Nasceu bem, esperto, está dando muito trabalho, já deve ter crescido alguma coisa, e cercado por grande carinho dos pais, irmãos, do avô, da outra avó e do tio, mais ausente, mas acompanhando de longe, quase perto.

Sempre coloco nas redes que participo – orkut, twitter, site, blog, facebook, msn – que estou “celebrando a vida” e já teve gente me questionando por que isso? Porque celebrar a vida com tanta gente querida indo embora. Em dois anos, duas tias (Angela e Neusa), minha mãe e tantas outras pessoas queridas que se foram. Como celebrar?

Mesmo sendo difícil falar de minha mãe no passado “minha mãe gostava, ela queria, podia, fazia, tentava, buscava, minha mãe era, e assim por diante”, preciso lembrar e celebrar todos os momentos que passamos juntos. Preciso e é bom tê-la viva na memória e no coração. A dor da perda não se tornará sentimento de saudade se eu não buscar na memória e no passado o que foi e o que viveu minha mãe. Hoje, celebrar a vida dela, é poder estar ao lado de meu pai, ser solidário com os seus sentimentos. Estar próximo de minha irmã, cunhado e meus 3 sobrinhos – Luiz Gustavo, Jéssica e Luiz Guilherme.

Celebrar o nascimento de um novo membro da família, cada momento que passarmos juntos, cada ligação recebida, cada palavra dita. Celebrar o passado e a memória. Celebrar o que está por vir.

O destino se faz presente no caminhar da vida. E celebrar o ciclo que ela faz é possibilitar que o destino se cumpra.

O Ciclo da Vida – Música tema do filme O Rei Leão interpretado pelo brilhante Ricky Vallen

O lenço

Comprei um lenço. Comprei sim. Um lenço palestino, o keffiyeh. Daqueles que adornam o pescoço e que na maioria das vezes as pessoas usam formando três pontas. Uma grande e central e as outras duas laterais, Um belíssimo lenço.

Lenços...

Lenços...

Mas não usei. Não combina comigo. E nem era esse o propósito.

Estava fazendo um curso em Sampa e por um momento saí da sala para tomar um cafezinho, pois depois de tantas palavras dita e uma noite muito mal dormida, só mesmo o sacrossanto cafezinho para ajudar. E foi aí que no hall de exposição do hotel vi uma mulher, com uma echarpe vermelha mostrando aos que igualmente fugiram do sono da cadeira, seus mais variados tipos de lenços e echarpes.

Comprei um lenço. O mais belo lenço palestino/árabe que ela possuía naquela tarde.
Lenços...
Tanta gente, principalmente depois que os lenços à lá cowboy apareceram na São Paulo Fashion Week, tendo como fonte de inspiração os bang-bangs do cinema da década de 60, começaram a envolver seus pescoços com esses panos macios, tratados e elegantes. E tem gente muito especial que sabe usar esse adereço com maestria.

Têm os lenços-gravata, o indiano, lenço da dança do ventre, o lenço do chapéu e o do pirata. Não posso esquecer o lenço do palhaço e aquele que Maria Madalena enxugou o suor do rosto de Cristo. Ah, e tem aqueles refrescantes lenços de papel umedecidos que todo neném adora, e muito marmanjo também.

Um lenço tradicional de outrora, era o “lenço do namorado”, confeccionado pelas mãos das moças e que traziam palavras sentimentais e de saudações amorosas. As moças adornavam em panos brancos com seus pontos de cruz, que aprenderam ainda na adolescência e que ao término eram remetidos aos pretendentes, ou como se dizia na época, os conversados. O gesto de usar ou não em público significava o aceite ou não do pretendente aos intentos da jovem enamorada.

Lenço do namorado

Lenço do namorado

Comprei um lenço por um motivo especial e depositei nele todo meu amor e carinho na esperança que no gesto de entrega houvesse a possibilidade da reconciliação. Que no abraço espontâneo sempre característico, eu pudesse retribuir imbuindo todo meu sentimento de gratidão, carinho, amor e paixão. Acho que não soube entregar esse presente da maneira correta. Os tempos são outros.

Sergio e Luiz André

Sergio e Luiz André

Comprei um lenço. Mas ele não me serve. Agora preciso não do lenço da cabeça, do pirata ou do palhaço. Hoje preciso de um pedaço branco de tecido, quadrado, o mais simples possível. Para enxugar as lágrimas de um ser que se encontra em profunda falta de esperança na sua condição de existência.

Preciso de um lenço. Para enxugar as minhas lágrimas!

Enxugar as lágrimas!

Enxugar as lágrimas!

Luiz André – por hoje, só Luiz André

Quem participa, decide!

Mulheres votam em plenária

Mulheres votam em plenária


Uma possibilidade mexe comigo. Poder decidir sem precisar que outros o façam em meu nome. A democracia representativa é constitucional e muito mais presente em nossas vidas do que possamos imaginar. Contudo, sou apaixonado pela democracia participativa e incentivador costumar das ferramentas que possibilitam o exercício do poder decisório direto. Assim, afirmo que o Orçamento Participativo – OP é uma conquista sem precedentes para Jacareí e para as cidades que o implantou.

O OP é a reunião de moradores de bairros e regiões que se encontram para discutir seus problemas e apresentá-los como demandas para que o governo possa saná-las, resolvê-las. Elege delegados, que elegem conselheiros e que definem prioridades dentro daquilo que se tem como orçamento para investimento. Essa é, superficialmente aqui colocada, a dinâmica do OP atualmente em Jacareí. Está de parabéns a prefeitura, os que participaram de plenárias, os delegados e conselheiros desses nove anos de execução dessa ferramenta primordial para a consolidação democrática e do desenvolvimento da cidade.

Moradores votam em prioridades

Moradores votam em prioridades

Mas, e aí é preciso ter maturidade para entender que o que se segue não são críticas e sim propostas, é preciso avançar na condução desse mecanismo de participação. A primeira questão é dar maior poder decisório aos participantes que nas plenárias nos bairros e regiões devem não só poder fazer propostas, mas também poder votar nas prioridades daquela localidade. Devem-se criar fóruns regionais de delegados do OP para poderem acompanhar e ter melhores condições de retornar as informações para as suas bases. O Conselho do Orçamento Participativo deve ganhar caráter deliberativo e a presença de membros do governo deve ter a função de orientar, dar suporte técnico e embasar com informações as decisões. O voto deve ser exclusivo do delegado/conselheiro.

Outra questão fundamental é ampliar as formas de participação. As plenárias físicas são importantes, mas não podem ser a única possibilidade de interação. A internet deve ser usada em larga escala. Um site/home-page especial do OP deve ser criado e moradores contribuírem em formulários próprios, mediante identificação de nome e e-mail e essas propostas serem sistematizadas e levadas ao conhecimento dos delegados. OP Interativo, Cibernético, Online. Uma maior possibilidade de participação daqueles que por motivos variados não podem estar das reuniões presenciais.

Convite para plenária do OP Jovem

Convite para plenária do OP Jovem

OP Temático. É necessário inserir na dinâmica do OP as discussões temáticas de políticas públicas que vão além da apresentação de propostas de obras. E não só discussões temáticas, mas questões setoriais como juventude, criança e adolescente, idosos, mulheres, inclusão étnico racial, LGBTT, pessoas com deficiência, etc.

E por último, o OP Criança ou Infanto-juvenil, que todo o cuidado deve-se tomar para não ser apenas uma experiência pedagógica e sim um mecanismo de protagonismo de nossas crianças e adolescentes. Deve ser um OP de verdade, com relevância política e decisória.

Plenária do OP Criança em escola do município de São Paulo - 2004

Plenária do OP Criança em escola do município de São Paulo - 2004

É isso, é uma contribuição desse apaixonado pelo OP, que quer comemorar logo os 10 anos desse instrumento em Jacareí, mas que tem algumas indagações e propostas.

Luiz André Moresi é membro da executiva municipal do PT de Jacareí, foi assessor de juventude da Prefeitura de Jacareí e coordenador do OP nas subprefeituras de Cidade Ademar, Capela do Socorro e Parelheiros na cidade de São Paulo em 2003/2004.

Na labuta diária do ser e do fazer!

Quase sempre, e isso é mais comum do que se pensa, somos obrigados a tomar decisões difíceis em nossa vida e da mesma forma, essas decisões nos trazem conseqüências indesejáveis, por melhores que tenham sido nossos posicionamentos.

E assim é feita nossa vida! Talhada na labuta diária do ser e do fazer.

Nossos caminhos são trilhados, é verdade. Direções nos são oferecidas, também é verdade. Mas é fato que nem sempre fazemos as boas escolhas, ou escolhas boas são realizadas tardiamente. Escrevo isso para dizer que preciso tomar decisões.

Mas essas decisões só me trarão tristezas, e feridas terão que ser tratadas. Esse ano tem-me sido penoso e falta-me capacidade para decidir com firmeza aquilo que angustia o que é considerado como sede das minhas emoções.

Meu coração é pulsante e teimoso. E às vezes falar com ele nas mãos é complicado. Coloca-me em posição de fragilidade eminente. Expor sentimentos e pensamentos, revelando-os com sinceridade pode levar ávidos estandartes opostos à compreensão equivocada e distante daquilo que me proponho.

Tenho sido incompreendido no que falo, nas minhas ações e acho que até em meu silêncio. Buscar a clareza do que quero é de importância impar para que possa ter a tranqüilidade da minha condição de existência.

Sou filho da esperança e mesmo que, distante das outras virtudes cristãs, fé e caridade, acredito que mereço a felicidade. Sou ser humano, passivo de erros e acertos. Sou ser vivo, e no lugar-tenência do meu âmago, carrego a certeza da alegria de que minhas decisões são minhas… e só minhas!


Cálice
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque e Gilberto Gil

Carta aberta a Marina Silva

Carta Aberta à companheira Marina Silva

Companheira Marina,

Vinte e dois anos depois de sua fundação, o Partido dos Trabalhadores, liderando uma frente de partidos e movimentos sociais, venceu eleitoralmente a perspectiva neoliberal que paralisara o país por duas décadas. Ao assumir a Presidência da República em janeiro de 2003, o governo Lula tinha diante de si duas tarefas gigantescas: retomar o crescimento e superar as marcas fundamentais que definiram os ciclos de desenvolvimento do século XX. Sabemos todos que o Brasil foi um dos países que mais cresceram durante o século XX, se considerarmos o PIB. No entanto, crescemos, sob ditaduras; crescemos, concentrando renda; e crescemos depredando os recursos naturais.

Senadora Marina Silva PT/AC

Senadora Marina Silva PT/AC

Ao longo desses quase sete anos de governo podemos afirmar que o governo Lula cumpriu o compromisso que o Partido dos Trabalhadores e o próprio candidato estabeleceram com a sociedade brasileira: retomamos o crescimento depois de duas décadas de estagnação. A retomada levantou para nós o triplo desafio para qualificar o ciclo do século XXI: desenvolver o Brasil aprofundando as conquistas democráticas; desenvolver o Brasil com distribuição de renda combatendo as criminosas desigualdades sociais e regionais; e desenvolver o Brasil incorporando a sustentabilidade socioambiental à cultura do novo ciclo.

Os dois primeiros desafios estão encaminhados: vivemos uma experiência democrática em que as instituições funcionam e se amplia a participação popular nos processos de tomada de decisão; vivemos uma dinâmica de investimento do estado no combate às desigualdades sociais e regionais que nos permite dizer ao mundo, como na recente pesquisa do IPEA, que no Brasil as camadas mais pobres da população elevam sua qualidade de vida em meio à crise mundial. O terceiro desafio não está encaminhado satisfatoriamente. O novo ciclo de desenvolvimento ainda não incorporou a dimensão da sustentabilidade socioambiental à sua cultura, ao seu comportamento. Mesmo considerando as conquistas alcançadas na formulação e condução das políticas socioambientais sob sua responsabilidade ao longo de cinco anos e meio à frente do Ministério do Meio Ambiente. Temos, portanto, aí um grande desafio a vencer para conferir uma nova qualidade à continuidade do nosso projeto. Evidentemente, é indispensável ouvir as razões de Marina Silva.

As razões de Marina Silva

Há pelo menos três razões para que ouçamos com discernimento e fraternidade o clamor em defesa da Terra – o frágil planeta que recebemos da humanidade que nos precedeu – e nos chega pela voz da companheira Marina Silva neste momento decisivo de sua trajetória.

Durante muito tempo a esquerda ouviu com uma sensibilidade menor e uma apenas discreta atenção os argumentos daqueles que puseram no centro de sua agenda, de suas angústias e esperanças, a luta pela sobrevivência do planeta. Mesmo quem examinava os argumentos, com sincera boa vontade, não deixava de sentir que havia ali, talvez, as marcas de um diagnóstico excessivo, de uma urgência artificiosa ou, quem sabe, de um viés tendencioso ou algo messiânico.

Agora, não temos mais este direito, depois do que viemos a saber, do que ficou inapelavelmente confirmado por cientistas de todo mundo, com destaque para o Relatório da ONU sobre as Mudanças Climáticas, do que é afirmado pelas consciências mais lúcidas. A causa da sustentabilidade socioambiental deve estar no centro da agenda no século XXI, configurando junto com a paz e a superação das desigualdades sociais e raciais, de gênero e de regiões, um novo paradigma de civilização.

Senadora Marina Silva - PT/SC

Senadora Marina Silva - PT/SC

Esta é a primeira razão de Marina: a sua exigência por uma opção radical que urge e que emociona a sua voz serena.

A companheira Marina há de concordar que o governo Lula é o governo da história republicana brasileira que mais fez por um programa ecológico. Não se conhece outro no qual a tensão entre desenvolvimento econômico e a preservação da natureza tenha ido ao centro de sua dinâmica. Entre suas conquistas estão a redução consistente no desmatamento da Amazônia, o alargamento inédito das áreas de preservação, a busca de alternativas econômicas para a “floresta em pé”, por meio da Lei de Florestas Públicas, o encaminhamento reconhecido internacionalmente dos compromissos relativos ao combate ao aquecimento global. Pela primeira vez na história, o Estado brasileiro começou a regular os investimentos econômicos pela lógica da sustentabilidade. A Resolução do Conselho Monetário Nacional proposta pela então Ministra Marina Silva que condiciona a liberação de recursos para empreendimentos do agronegócio nas áreas da fronteira agrícola, aos critérios de sustentabilidade socioambiental, produziu uma forte reação deste setor. Este é apenas um exemplo.

Mas estes avanços históricos são ainda insuficientes diante do novo ciclo de desenvolvimento brasileiro iniciado nessa primeira década. Mais carros, mais combustíveis, mais consumos extras e supérfluos , mais pressão sobre a Amazônia e as fronteiras agrícolas, reprodução em escala ampliada de padrões de consumo típicos de países capitalistas centrais. A agenda ecológica estará perdida se condenada a lutar apenas na resistência, caso a caso, na regulação e na contenção das vertentes mais agressivas do crescimento. O que se requer é um novo paradigma de desenvolvimento: a economia verde do século XXI. Não apenas uma contenção e regulação, mas uma reposição e uma programatização ampla dos fundamentos socioambientais do desenvolvimento brasileiro.

Esta é a segunda razão de Marina: ainda não temos este paradigma. É preciso construí-lo.

O PT foi o primeiro partido socialista brasileiro a incorporar, como contribuição inestimável da geração da qual Chico Mendes e Marina fazem parte, a temática do desenvolvimento sustentável. Provavelmente estão na extensa rede de militantes, filiados e simpatizantes do nosso partido a maior parte dos que sustentam a utopia verde. Há uma crescente sensibilidade em relação à consciência ecológica por parte das lideranças do PT. Mas ela ainda é uma agenda setorial, isto é, não vertebra, não estrutura, não orienta as suas prioridades.

Esta é a terceira razão de Marina: o PT ainda não é um ator central na construção da utopia verde que necessitamos com urgência, capaz de se traduzir num projeto político nacional, sul-americano, que responda, num horizonte visível, aos desafios de formular um novo paradigma de desenvolvimento que supere os padrões – insustentáveis – de produção e consumo que nos conduziram à grande crise ambiental em que a humanidade se debate nos dias de hoje.

Liberalismo ecológico?

Marina Silva, em frente de quadro de Chico Mendes

Marina Silva, em frente de quadro de Chico Mendes

O claro diagnóstico da comunidade científica internacional, a pressão da opinião pública internacional, a sensibilidade crescente diante dos desastres ecológicos tem feito surgir um fenômeno novo, no centro e na periferia do mundo capitalista: um liberalismo ecológico. Isto é, a formação de uma consciência e de um programa que pretende unir capitalismo e ecologia, mercado e regulação, absorvendo a consciência ecológica em um paradigma de uma humanidade ainda organizada para a produção de mercadorias. Este fenômeno não deixa de ser relevante para a causa da sustentabilidade do desenvolvimento.

No Brasil, há hoje, com todos os cálculos voltados para as eleições de 2010, um claro esforço por parte de empresários, por parte do PSDB e de setores ecológicos anti-socialistas, de abraçar uma agenda verde. Nada mais patético do que a série de filmetes, repetidos em horário nobre, por exemplo, do Banco Bradesco contando a história de Chico Mendes e das causas ecológicas da Amazônia.

Mas esse Eco-liberalismo apresenta grandes limites. O primeiro é que, centrado em uma base empresarial, terá como horizonte sempre a regulação do mercado, de sua potência agressivamente destrutiva, e não a formação de um novo paradigma que não pode estar assentado na exploração e na maximização do lucro. O segundo, e de implicações mais graves, é o que separa o grito do planeta – cuja expressão está sob nossos olhos com as catástrofes climáticas – do grito dos oprimidos, o grito da Terra e o grito dos pobres, a causa da sustentabilidade ambiental e a causa social! Isto é, na direção contrária que aponta a grande Teologia da Libertação de Leonardo Boff.

No Brasil, esta separação entre a causa ambiental e a causa social, entre a luta ecológica e movimento sindical, o Movimento dos Sem-Terra, as CEBs , os Movimentos Negros e de Mulheres e toda a rede social que organiza a luta dos pobres contra a exploração, seria uma tragédia. A luta em defesa da sustentabilidade socioambiental soma, mobiliza, sopra para além das esferas de um só partido. Ela requer grande ambiência social, um espírito novo de convergência, de horizontes e cores tão plurais como as da complexa sociedade democrática que estamos construindo. Por isso não pode ser neutra, pretender eqüidistância da luta dos que têm fome e sede de justiça!

Trazendo para o chão da política a sociedade brasileira estará posta diante da escolha: dar continuidade ao projeto que elegeu Lula por duas vezes ou interrompê-lo. E fazer dele à luz da História, como já disse alguém, apenas um breve intervalo nos quinhentos anos de mando dos senhores de escravos e seus herdeiros sociais. Vivemos numa democracia, a precária democracia que conquistamos a duras penas nos últimos trinta anos. Não vemos suas angústias e dúvidas publicamente colocadas como um escândalo, portanto. Só os sectários não percebem o que a trajetória de vida e de militância política de Marina Silva significam para a afirmação da agenda socioambiental no Brasil. E, em torno desta agenda, o debate incontornável para desafiar a imaginação da sociedade na busca da qualificação do novo paradigma de desenvolvimento que desejamos para o país e para o planeta.

Os setores sociais e políticos que desejam interromper o processo que inauguramos com os dois mandatos do Presidente Lula, desejam encontrar um lugar na disputa dos rumos do país, contando com uma voz respeitada no Brasil e no mundo quando se trata das questões ambientais. Uma voz com credibilidade. Por uma razão muito simples: a mensagem de Marina Silva é a vida de Marina Silva. Essa voz serena e lúcida, ancorada numa vida militante identificada com o impulso dos mesmos movimentos sociais que deram berço ao PT, à CUT, ao CNS, ao MST : aqui reside sua força e não em outro lugar. São estes movimentos e outros tantos disseminados nessa fabulosa rede que anima as lutas populares em todos os recantos do país, que vêm mudando a face do Brasil – ainda que de maneira insuficiente – nos últimos trinta anos.

Ouvir a voz de Marina Silva e debater com ela

Marina Silva conversa com presidente Lula

Marina Silva conversa com presidente Lula

As esquerdas têm o dever de ouvir a voz de Marina Silva. As razões de Marina Silva. Ela, que já deu tanto à nossa geração, receba, agora, por todos os lados, a nossa mão estendida. As mãos que teceram ao longo de três décadas a rede de sonhos e esperanças que nos mobilizou a todos; a capacidade de organizar nossa ação na base da sociedade para reivindicar direitos sociais por meio da CUT; levantar bandeiras ambientais como nos “empates” liderados por Chico Mendes para deter a voracidade dos desmatadores da Amazônia; ou para formular e conduzir políticas públicas de desenvolvimento sustentável no Ministério do Meio Ambiente, liderados por ela. Nós que já sonhamos tanto por uma sociedade de harmonias, livre das opressões, precisamos também saber compor com as harmonias da Terra.

Que o programa de governo a ser apresentado pelas forças políticas que defendem a continuidade do processo inaugurado com o governo do Presidente Lula incorpore a dimensão da sustentabilidade socioambiental à cultura do novo ciclo de desenvolvimento. E estabeleça, explorando até o limite das nossas consciências e criatividades, um novo paradigma que supere o padrão de produção e consumo definido pelo capitalismo liberal.

Que o próximo Congresso Nacional do PT marcado para fevereiro de 2010 – nos trinta anos da nossa fundação – leve o nome do companheiro Chico Mendes como forma de trazer para o centro do debate das esquerdas a centralidade da agenda que ele prefigurou com sua vida e sua militância e selou com sua morte, projetando o Brasil na liderança mundial por um novo paradigma de civilização no século XXI.

Brasília, 15 de agosto de 2009.

Juarez Guimarães – professor UFMG
Hamilton Pereira – Conselheiro da Fundação Perseu Abramo
José Eduardo Cardozo – deputado federal PT – SP
Paulo Teixeira – deputado federal PT – SP
Henrique Fontana – deputado federal PT – RS
Pepe Vargas – deputado federal PT – RS
Arlete Sampaio – DN – PT
Carlos Henrique Árabe – Executiva Nacional PT
Elói Pietá – DN – PT
Joaquim Soriano – DN – PT
Gilmar Machado – deputado federal PT-MG
Francisco Praciano – deputado federal PT-AM
Eudes Xavier – deputado federal PT – CE
Dr. Rosinha – deputado federal PT – PR
Raul Pont – deputado estadual PT-RS
Ronaldo Zulke – deputado estadual PT – RS
Daniel Bordignon – deputado estadual PT – RS
Janete Pietá – deputada federal PT – SP
Jorge Bittar – secretário de Habitação da prefeitura do Rio
Alessandro Molon – deputado estadual
Jorge Mario – prefeito de Teresópolis
Marcello Zelão – prefeito de Silva Jardim
Beto Bastos – suplente do Diretório Nacional do PT
Luiz André de REzende Moresi – Secretário de Finanças – DM PT Jacareí-SP
Alberes Lima – Presidente do DM PT Rio
Inês Pandeló – deputada estadual
Cristina Dorigo – secretária de mulheres PT-RJ
André Victor Singer – professor da USP
Arquimedes Diógenes Ciloni – ex-reitor da Universidade Federal de Uberlândia;
Ricardo Duarte – ex-deputado estadual – MG.
Artur Scavone – PT – SP
Márcio Pessatti – DR-PT/PR
Eduardo Bastos – músico, PT Rio
Bruno Moreno – OAB jovem, PT Volta Redonda
Naide Marinho – Diretora da CAARJ e do sindicato dos advogados
Jurandyr Mello – assessor parlamentar, PT Rio
Tadeu Alves – executiva municipal do PT Rio
Danielle São Bento – professora, PT Rio
Ana Maria Ribeiro – CAED PT-RJ
Zé Américo – vereador PT Silva Jardim
Clenilson Belo – DM PT Angra dos Reis
Paulo Sérgio – DM PT São João de Meriti
Daniel Angelim – historiador, PT Niterói
Juarez Magalhães – Comitê de Integração da Bacia do Rio Paraíba do Sul – PT Barra Mansa
Dr. Ilson Peixoto – vereador PT Angra dos Reis
Roosevelt Rui – bancário, PT Rio
Murilo Silva – diretor do Sindicato dos Bancários
Thiara Nascimento – diretora da CUT
Sergio Gianetto – presidente do Sindicato dos Portuários
Roberto Ponciano – diretor da CUT
Afonso Celso – diretor do Sinpro
Sergio Amorim – diretor da CONTRAF
Beatriz Selles – médica, PT Niterói
Valeska Antunes – médica, PT Rio
Maria Alicia Castells – médica, PT Rio
Rodrigo Pacheco “Maranhão” – médico, PT Rio
Rodrigo Mathias – jornalista, PT Teresópolis
Bianca Lessa – assistente social, PT Rio
Bruno Linhares – presidente da CENACOC, PT Rio
Celso Caseiro – executiva estadual do PT-RJ
Regina Toscano – DZ PT Laranjeiras
Carlos Ferreira – vereador PT Nova Iguaçu
Jorge Florêncio – presidente do PT São João de Meriti
Geraldo Luiz – vereador PT São João de Meriti
Fidélis – vereador PT Belford Roxo
Sergio Rosa – setorial de Tecnologia da Informação PT-RJ
Serginho da Rádio – Rádio Comunitária do Jacarezinho
Mozart Chalfoun – professor, PT Rio
Damião Linhares – DZ PT Ilha do Governador
Cabeça – DZ PT Cidade de Deus
Jurandir – PT Nova Iguaçu
Zé Afonso – presidente do PT Barra Mansa
Bill – PT Barra Mansa
Viviane Maciel – bióloga, PT Teresópolis
Ary Morais – secretário de desenvolvimento social e economia solidária da prefeitura de Teresópolis
Nilo Sérgio – vice-presidente PT Teresópolis
Norma Suely – Secretária de Direitos da Mulher da prefeitura de Teresópolis
Ary Pascoal – arquiteto, PT Teresópolis
Marcello Escobar – Receita Federal, PT Teresópolis
Marisa Mello – Historiadora, PT Niterói
Miguel Papi – publicitário, PT Rio
Rildo – DZ PT Maré
Leandra Barros – jornalista, PT Niterói
Roberto Lara – vice-presidente PT Silva Jardim
Irene Lopes – psicóloga, PT Rio
Inni Vargas – jornalista, PT Niterói
Sheila Castro – socióloga, PT Rio
Paulo Santos – geógrafo e educador popular, PT Rio
Ademir Enfermeiro – vereador PT Teresópolis
Rosa Helena – Executiva municipal do PT Teresópolis
Tulio Franco – sanitarista e professor da UFF, PT Niterói
Pablo Meneses – pastoral de juventude, PT Rio
Julio Mendes – DCE PUC, PT Rio
Denise Lobato: Secretária de Governo da Prefeitura de Teresópolis
Leonardo Reis: DM PT Niterói
Pedro Troyack: DM PT Petrópolis
Leo: Presidente DM-PT Araruama
Marcelo Cabelereiro: Vereador PT Barra Mansa
José Octávio Câmara Fernandes: PT Arraial do Cabo
Mauro Lima – PT Volta Redonda
Valéria Cristina Gomes – Jornalista, PT de Nova Friburgo
Carmem Helena Ferreira Leite – PT Guapimirim
Luiz Antônio Carvalho (Luizão): Assessoria do Ministério do Meio-ambiente
Og Barbosa – diretor do SISEJUFE-RJ
Marcelo Puertas – setorial de meio ambiente, PT Macaé
Vera Barradas – ex-diretora do SINTUFRJ
Eduardo Godinho – DM PT Angra dos Reis
Marlos Luiz de Araújo Costa: vereador PT São Gonçalo
Marcelo de Oliveira Santos – PT Saquarema
Bruno Falci – estudante, PT Rio
Amanda Mendonça – socióloga, PT Rio
Marcelo Rodrigues – sindicato dos bancários, PT Rio
Michele Chagas – professora, PT Rio
Camilla Barroso – diretora da UEE-RJ
Carla Liana – historiadora, PT Rio
Marco Tulio Paolino – diretor do SEPE
Vinicius Machado – DCE PUC
Antonio Carlos Buzzato “Tonico” – assessor parlamentar
Rodrigo Almeida – pedagogo, PT Belford Roxo
Fernando Linhares – professor, PT Niterói
Gustavo Felinto – nutricionista
Helder Rodrigues – servidor da justiça do estado, PT Rio
Erika Gloria – Pastoral de Favelas, PT Rio
Giselle Soares – bancária, PT Rio
Vinicius Costa – DCE PUC
Talita San Thiago – DCE PUC
Marcelo Peixoto – advogado, PT Niterói
Fabricio Cazalari – DCE PUC
Eduardo Santa Helena – diretor de administração e finanças CPRM
Maria Náustria Albuquerque – núcleo dos petroleiros, PT Rio
João Luís da Silva – Movimento Fé e Política, PT Barra do Piraí
Maria Eduarda Quiroga – Marcha Mundial das Mulheres
Fernando Augusto Bastos da Conceição: vice-prefeito de Silva Jardim
Bernardo Cotrim – Executiva Estadual do PT-RJ
Vogner Moreira – PT Macaé
Angélica Chaves – advogada, PT Macaé
João Soares Orban – secretário de habitação da prefeitura de Petrópolis
Eduardo Alves Melo – médico, PT Rio
Mario Wendel Abramo
Matheus Bandeira – JPT/PB
Regina Maria Bueno de Azevedo (Pesquisadora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo – IPT/ SP)
Roberto Morimoto, médico
Ros Mari Zenha (Geógrafa, pesquisadora e docente do IPT)
Sandra Schneider – DM PT Niterói
Robson Leite – educador popular, PT Rio
Antonio Carlos Carvalho “Carlinhos” – ex-presidente da CUT-RJ
Rafael “Broz” – DCE PUC, PT Rio
Carol Petterli – DCE PUC, PT Rio
Daniel Gaspar – diretor da UNE, PT-Rio
Clarissa Cunha – secretária geral da UEE-RJ
Marcela Baptista – juventude do PT
Ian Angeli – ex-diretor da UEE-RJ
Marcello Azevedo – diretor da CUT-RJ
Neuza Luzia – vice-presidente da CUT-RJ
Marcia Bauer – assessora do SISEJUFE
Valter Nogueira – diretor do SISEJUFE
Rodrigo Oliveira – secretário de saúde da prefeitura de Silva Jardim
Luanda Lima – juventude do PT
André Marinho – diretor do SINPRO
Luiza Rocha – núcleo PT Leopoldina
Paulo Bastos – professor, PT Rio
Sávio Costa – PT – BA

Carta aberta ao leitor

Parada 2009

Parada 2009

Leitor,

Desculpe-me a sinceridade e a liberdade de publicamente, dirigir-me a você, talvez as paradas, manifestações, artigos, entrevistas e pesquisas não foram suficientes para sua sensibilização.

Neste 28 de junho é celebrado o orgulho de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais – LGBT – em alusão ao que ocorreu nessa mesma data na cidade de Nova York em 1969, e que veio a ser conhecido como a Rebelião de Stonewall. De freqüência LGBT, Stonewall era e ainda é um bar que sofria repetidas batidas policiais, sem justificativa. Naquele dia, os freqüentadores se revoltaram e a manifestação durou três dias, mudando as atitudes repressivas das autoridades para com as pessoas LGBT e dando início à luta pela igualdade de direitos de LGBT. Essa data é celebrada por todo o mundo através de paradas, e outros eventos culturais, artísticos, acadêmicos e políticos trazendo a expressão de orgulho, não de vergonha, de assumir publicamente a orientação sexual e identidade de gênero LGBT.

Parada 2009

Parada 2009

Agora, caro leitor, você já sabe por que acontece a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior do planeta e pelo menos outras 150 pelo Brasil afora. É uma manifestação social e política por reconhecimento de direitos. Assim como negras e negros tem o dia 20 de novembro, mulheres o 8 de março, trabalhadores o 1º de maio, as pessoas LGBT tem o 28 de junho. Outros movimentos se utilizam de instrumentos parecidos também para reivindicarem direitos. Movimentos dos Sem Terra e sem Teto, Marcha Mundial de Mulheres, Centrais Sindicais, Movimento Estudantil e tantos outros movimentos. Mesmo diante de tamanha manifestação e mobilização, direitos ainda são negados e o pior, o preconceito existe, é grande e fere e mata.

Muitas vezes, até sem perceber, propagamos atos homofóbicos e colocamos pessoas LGBT em situação de desconforto e ridicularização. Tantas vezes, através de comentários e piadas, fazemos “platéias” rirem de termos como gazela, boiola, libélula. Dizemos “isso é uma bichona”, que tal pessoa “morde a fronha” ou que “isso é coisa de boiola”. Reproduzimos uma situação que é muito triste aqui e no mundo todo: a Homofobia. Nem lembramos que em sete países há pena de morte para os homossexuais e 80 países criminalizam os atos homossexuais e que no Irã gays são enforcados em praça pública.

Fico imaginando como sofrem os adolescentes que descobrem sua orientação sexual ou identidade de gênero LGBT, na escola, na família e no bairro. Recentemente vimos num programa jornalístico de investigação um adolescente de 14 anos, Iago, que cometeu suicídio porque não agüentava mais sofrer com a homofobia dentro da escola. Esses mesmos termos que muitas vezes usamos como piada, tenho certeza, eram adjetivos usados por colegas para discriminar Iago. Pesquisa da UNESCO publicada em 2004 consta que 40% dos adolescentes não gostariam de estudar com um gay, uma lésbica ou uma pessoa trans. Na última Parada Gay em São Paulo 22 pessoas ficaram feridas com uma bomba que uma pessoa jogou de um prédio e um gay de 35 anos, numa rua próxima da Praça da República, foi espancado. Apanhou tanto que sofreu traumatismo craniano e morreu. É isso mesmo, morreu vítima da homofobia.

Campanha contra homofobia

Campanha contra homofobia

Aqui no Vale do Paraíba muitas pessoas LGBT foram brutalmente assassinadas vítimas da raiva e da intolerância de seres inconformados com a diversidade sexual. Não é à-toa que a maioria dos pais não querem que seus filhos sejam gays, lésbicas, travestis ou transexuais. Eles temem que sofram, que sejam violentados, discriminados e que sejam motivo de piadas de péssimo gosto e assédio moral. Já são quase 3000 as pessoas que, nos últimos 20 anos, foram barbaramente assassinadas só porque eram LGBT. Isso é muito triste.

Essa semana, no mesmo programa jornalístico, “Profissão Repórter”, outra situação foi mostrada. Uma garota de 14 anos foi deixada por sua tia, no conselho Tutelar da cidade de São Paulo, por se vestir como menino e ter características masculinas. Ela tinha ido morar com a tia por causa das freqüentes surras que levava da mãe e do padrasto. “Minha mãe não aceitava. Ela tinha preconceito como eu me vestia… andava muito menino”, disse a adolescente. Perguntada se gostaria de ser menina, a garota gesticula que não e diz que sempre foi assim, desde pequena. “Minha tia também não quis [aceitar]. Queria me vestir de mulher, eu não aceitei. Então, pedi pra ela me mandar pra cá [conselho tutelar]”, contou. Ficou claro nessa reportagem como o preconceito interfere na vida de uma pessoa, no caso, na infância e na felicidade de uma criança que, diante de tamanha agressão dentro de casa, mesmo assim, ainda diz com lágrimas que se pudesse escolheria a casa de sua mãe para morar. O preconceito homofóbico fez que, conforme mostra a reportagem, essa garota fosse viver em um abrigo.

Por isso que escrevo essa carta para você, querido leitor e leitora. Basta de homofobia, muita gente já morreu e sofreu e sofre porque, de algum modo, desrespeitamos a condição da pessoa humana. Se você é professor, trabalhe em sala de aula o respeito à diversidade. Jornalistas podem escrever artigos valorizando a boa convivência e denunciando as mazelas contra os direitos humanos. Nossos parlamentares, vereadores e deputados da região podem criar leis que favoreçam o respeito e garantam os direitos de pessoas LGBT. Nossos prefeitos podem criar políticas públicas de inclusão dos LGBT na sociedade, a exemplo do que acontece no governo federal, através do Programa Brasil Sem Homofobia. Há também o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT, com 180 ações contra a homofobia e a favor do respeito à diversidade humana, fruto da 1ª Conferência Nacional LGBT, precedida de conferências regionais e estaduais, uma delas realizada em nossa região no ano passado. Radialistas e apresentadores de programas de TV podem e devem contribuir para que o preconceito deixe de existir e todos nós podemos fazer coro e apoiar o projeto de lei que criminaliza a homofobia, o PLC 122/2006 que está parado no Senado Federal.

Senhoras idosas na Parada Gay 2009

Senhoras idosas na Parada Gay 2009

Todos nós podemos nos dirigir as pessoas LGBT com respeito e dignidade como qualquer outra pessoa tem direito. Aquelas piadas e chacotas podem contribuir para que adolescentes cometam suicídio, que pais e mães expulsem seus filhos de casa e que atitudes violentas contra LGBT sejam reforçadas.

Desejo tanto que nossa constituição seja respeitada, quando diz nos artigos 3º e 5º que todos são iguais e não haverá discriminação de qualquer natureza. Conto com sua ajuda, caro leitor e leitora.

Luiz André Rezende Moresi, é ativista dos Direitos Humanos e dos Direitos LGBT

O que é Simpatia? É o sentimento…

Nesses dias lembro-me de minha avó Nair. Gostava de passar as férias escolares na casa dela. Éh, tinha que ser na casa dela, até visitava meus primos, dormia um dia ou outro na casa de um, na casa de outro… mas as minhas férias eu passava na casa dela. Era para lá que eu ia, era lá que ficavam minhas roupas, era lá que meus primos e primas iam para me ver. Ah, e era lá que tinha uma lata enorme de leite em pó, uma não, duas. Duas, porque uma eu consumia lá, durante as deliciosas férias nas “terras redondas”. A outra lata, eu trazia para Jacareí, para me lambuzar e lembrar do doce carinho daquela senhora meiga, simpática, alegre… minha vovózona, e como diz meu pai, Dona Nai.

Ela era a “Simpatia” em pessoa. Sorridente, mesmo doente, diabética, com dificuldades para andar, pegava o ônibus e toda semana ia para a igreja, minha madrinha Maria sempre que podia acompanhava. E quando chegava trazia umas balas deliciosas de goma e me dava… era uma por dia, estava abençoada pelo pastor e tinha um significado especial. Era para eu não mais fazer “xixi” na cama.

Éh, tem pessoas que na simplicidade do dia a dia conseguem deixar marcas que duram por muito e muito tempo. Tenho certeza que meus primos e primas lá de Volta Redonda têm muitas histórias para contar dessa senhora “Simpatia”. Eles conviviam mais com ela, e eu apenas duas vezes no ano. Minha avó Nair era evangélica, da Universal, mas que não deixava de jogar no “Bicho” (lembro diversas vezes de sair com ela e na volta passar na banquinha do “Bicho” que tinha próximo de onde ela morava) e também de comprar o carnê do “Baú”. Levava consigo o sonho de dar uma casa para cada filho que ainda não tinha. Sou, sou sim…. um neto coruja e que sente muita saudade dessa que “mãezona, vovózona” abraçava e acarinhava cada filho e cada neto da forma mais gostosa que se possa imaginar. Meu pai fala até hoje da pizza que ela fazia e que segundo ele parecia mais uma torta de tão caprichada que era… a autêntica pizza napolitana.

Não esqueço que ela fez meu pai abrir uma conta poupança, uma em meu nome e outra na da minha irmã, e sempre no nosso aniversário ela depositava um valor, como presente de aniversário, já que não estávamos lá para receber o abraço dela. Tudo isso eu conto, só para chegar à vez em que depois de “grande”, ia completar 15 anos, era abril de 1989 e já tinha minha própria conta bancária e meu cartão. Estudava no Senai de São José dos Campos e era contratado pela SADE, uma empresa metalúrgica de Jacareí. No dia de pagamento passava em frente ao caixa eletrônico e pegava meu pagamento, era meio salário mínimo, naquele tempo de inflação e juros altíssimos. Era dia 10 de abril de 1989, um dia depois do meu aniversário, e fui tirar o dinheiro do banco…eis que me assusto e tinha o dobro, é isso mesmo, em vez de meio salário, tinha um inteiro. Que alegria, a fábrica deu aumento… Mentira, isso não iria acontecer tão cedo. Fiquei tão preocupado, não tirei nem o meu “meio” salário…

Demorou dois dias para eu criar coragem e dizer para meu pai o que tinha acontecido. E ele, todo debochado, disse que tinha sido a minha avó Nair que tinha pedido a minha conta e que ia depositar lá, pois afinal, já era hora de eu tomar conta do meu dinheiro. Depois disso ela adoeceu muito, gastou com remédios e em 1992 faleceu.

Quando vejo, lembro, falo, escrevo a palavra SIMPATIA é dela que lembro. Oxalá as mulheres e homens desse nosso país pudessem exalar e transpirar, ensinar e viver a essência simpática da vida!!! Sei que sou meio carrancudo, mas sei reconhecer quando alguém tem simpatia ou quando mascara tentando ser simpática. Tem uma grande diferença.

O que é simpatia?

Simpatia – é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.

Simpatia – são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.

São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.

Simpatia – meu anjinho,
É o canto de passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d’agosto
É o que m’inspira teu rosto…
- Simpatia – é quase amor!

Música: Chiquinha Gonzaga
Letra: Casimiro de Abreu
Intérprete: Zé Ramalho
Piano: Maria Teresa Madeira

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